Mbappé é criticado por direita e extrema direita em episódio com camisa de Ceuta
A decisão de Kylian Mbappé de vestir parcialmente uma camisa em apoio à população de Ceuta gerou uma intensa polêmica na Espanha, ecoando também na França, alimentada pelas críticas da direita e da extrema direita ao astro do Real Madrid.
O atleta francês e seus companheiros de equipe Vinícius Júnior e Ibrahima Konaté estão no centro da polêmica após vestirem parcialmente uma camisa em apoio a Ceuta — enclave espanhol no norte da África que registrou uma entrada maciça de imigrantes no fim de julho — antes da vitória por 3 a 2 sobre o Elche, na terça-feira.
Os três deixaram a camiseta enrolada na altura do peito, impedindo a leitura completa da frase "Somos todos 'caballas'" (como são chamados os habitantes de Ceuta).
As imagens se espalharam rapidamente pelas redes sociais e chegaram ao Congresso dos Deputados em Madri, a menos de um ano de eleições gerais nas quais a questão migratória é um dos temas centrais.
A porta-voz do Partido Popular (direita) no Congresso, Ester Muñoz, declarou ter sentido "vergonha alheia" ao ver o gesto dos jogadores, enquanto José María Figaredo, deputado do ultradireitista Vox, considerou que "os espanhóis são muito livres para se sentirem indignados com três milionários que vivem na Espanha e que depois não apoiam os espanhóis".
O grupo radical de torcedores do Real Madrid Ultras Sur — associado à extrema direita e proibido de entrar no Santiago Bernabéu — classificou como "inaceitável" a atitude dos atletas e defendeu um "pedido público de desculpas".
- "Solidariedade" -
A questão de Ceuta continua no centro dos debates na Espanha desde que a entrada maciça de migrantes no fim de julho desencadeou uma crise inédita na pequena cidade autônoma, bem como fortes tensões diplomáticas na União Europeia.
Dezenas morreram na tentativa de chegar ao enclave, sobretudo no mar, segundo os balanços das autoridades espanholas e marroquinas. Embora a maioria tenha retornado rapidamente ao Marrocos, milhares permaneceram em Ceuta, onde a situação vem se deteriorando.
Diante da polêmica, Mbappé explicou sua decisão ao jornal esportivo AS na quarta-feira.
"A primeira coisa que quero dizer é que presto total solidariedade a Ceuta e a todas as vítimas, porque, antes de ser jogador, sou um ser humano", assegurou o atacante francês.
"Eu também queria ter um gesto e um pensamento para todos os imigrantes que perderam a vida e que também estão em condições difíceis", disse, indicando que não queria dar "prioridade ao sofrimento".
Uma declaração ponderada por parte do atleta, que já havia se posicionado no passado sobre outros temas, manifestando sua indignação diante do racismo ou sua oposição ao partido de extrema direita francês Reagrupamento Nacional (RN), que também criticou seu gesto nesta semana.
O.Ouellet--SMC