Tráfico, corrupção e pressão dos EUA: pontos-chave da prisão do procurador-geral na Bolívia
Promotores presos, dinheiro escondido em uma ambulância e acusações de narcotráfico e corrupção de parte dos Estados Unidos: uma tempestade sacode o Judiciário da Bolívia após a prisão do procurador-geral Roger Mariaca.
Em prisão preventiva por seis meses em um presídio de Potosí, no sul do país, o ex-funcionário público de 38 anos é investigado pela justiça boliviana por lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e crime organizado.
Ele foi capturado pela polícia na semana passada em Santa Cruz (leste), em uma operação na qual foram detidas outras 13 pessoas, inclusive três promotores.
Dias antes, os Estados Unidos tinham cancelado o visto de Mariaca e de outros altos funcionários e empresários de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, aos quais acusa de corrupção e de terem vínculos com o narcotráfico.
A seguir, confira quatro pontos-chave para entender o que está em jogo na Bolívia:
- "Casos polêmicos" -
Mariaca foi nomeado à frente do Ministério Público em 2024 pelo Congresso controlado na ocasião pelo governista Movimento ao Socialismo, que levou ao poder os esquerdistas Evo Morales (2006-2019) e o então presidente Luis Arce (2020-2025). Morales é hoje o principal opositor do presidente de centro direita Rodrigo Paz.
Antes, Mariaca era chefe dos promotores em Santa Cruz, departamento mais impactado pelo tráfico de drogas. "Sua figura sempre foi controversa" por "casos polêmicos" sob sua supervisão, disse à AFP a socióloga boliviana Luciana Jáuregui.
Um deles foi a investigação contra o traficante uruguaio Sebastián Marset, um dos mais procurados do cone sul.
Desde agosto de 2025, como procurador-geral, as ações de Mariaca ganharam "caráter político", segundo Jáuregui, que mencionou o caso do argentino Fernando Cerimedo, assessor pessoal do presidente Paz, detido por tentativa de feminicídio e suspeita de corrupção, que atinge o governo e a família presidencial.
Mariaca denunciou à imprensa que o cancelamento de seu visto pelos Estados Unidos foi uma "pressão" pela investigação contra Cerimedo.
- Vínculo com o narcotráfico -
Washington sustenta que como procurador ele recebeu "subornos para facilitar o narcotráfico e ajudar criminosos violentos a driblar a justiça", uma acusação que ele nega.
O governo boliviano denuncia que durante seu mandato, o Ministério Público se tornou uma "organização criminosa".
Na noite de sua prisão, uma ambulância foi interceptada quando saía de sua residência com 300.000 dólares (cerca de R$ 1,5 milhão) escondidos, segundo as autoridades.
Enquanto conduzia o caso Marset em 2023, o narcotraficante uruguaio conseguiu escapar de uma megaoperação para sua captura.
O atual ministro do Governo (Casa Civil), Marco Antonio Oviedo, denunciou então que as autoridades "o deixaram sair" e "lhe devolveram seus bens apreendidos".
Marset acabou sendo capturado na Bolívia em março e expulso para os Estados Unidos. Veículos de imprensa locais publicaram um vídeo com sua detenção, que a AFP não pôde verificar, no qual ele supostamente diz a policiais: "Mariaca é meu amigo".
- Colaboração dos EUA -
O governo garante que a operação contra Mariaca e os outros detidos foi realizada pela polícia boliviana em cooperação com a inteligência dos Estados Unidos.
O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, disse que seu país "apoia firmemente" Paz.
O mesmo fizeram os 15 países-membros do Escudo das Américas, a aliança de governos de direita contra o crime transnacionais na região, liderada pelo governo de Donald Trump.
"De alguma forma, a pressão externa está sendo um ponto" de apoio para Paz "frente à sua fragilidade interna", diz Jáuregui.
O presidente venceu as eleições com uma coalizão de forças que depois se desfez, enquanto nas ruas fortes protestos puseram seu governo contra as cordas.
No poder desde novembro, Paz sofre um "desgaste" devido a recentes medidas econômicas impopulares, disse à AFP a cientista política Adriana Rodríguez.
- "Disputa de poder" -
Após a captura de Mariaca, o Ministério Público nomeou Luis Montaño como novo chefe, mas o governo de Paz o denunciou por obstruir o caso e deixou de reconhecê-lo.
Na madrugada de sábado, após uma longa sessão, o Congresso nomeou José Armando Urioste como procurador-geral interino, após aprovar uma reforma para destituir Mariaca e substituí-lo.
Uma senadora da oposição questionou a presença de funcionários das embaixadas de Estados Unidos, Argentina e Peru, aos quais gravou.
Segundo Adriana Rodríguez, o Ministério Público é cenário de uma "disputa de poder político" enquanto seu titular definitivo é escolhido.
Para a socióloga Jáuregui, o governo de Paz "está buscando (...) construir uma nova legitimidade a partir da luta contra a corrupção e o narcotráfico".
P.Graham--SMC